Bruno Lorenzetti Gil
Vivemos em um mundo com excesso de informações. Pode notar: você, constantemente, se pergunta se aquela notícia sobre o governo Lula que você viu em uma rede social está correta. Se está, com base em quê? Se não, onde está a contradição? Qual a relação? Por que as pessoas inventam coisas absurdas?
Eu sei, eu te enchi de perguntas. Essa é a ideia. Eu mostro a você que sim, nós vivemos em um mundo que precisa de constante atualização, não importa quando, como, por quê, onde, o quê, quem, qual contexto. Essa percepção se repete para além da minha área de atuação, o jornalismo — ela passa por você, mãe atípica, autista, responsável por autista.
Sabe-se que mães, pais, responsáveis e pessoas autistas sofrem diariamente. Esse sofrer se estende para além das terapias, que já são uma fortuna, visto que não temos acesso a elas na rede pública com a dignidade que merecemos: ele perspassa por uma sociedade que ininterruptamente julga aquilo que simplesmente vê. O autista é atacado por qualquer movimento, desde um salto que significa libertação pra ele até uma conquista como o ingresso em uma universidade, há tão pouco tempo inimaginável, independentemente se esta for pública ou privada. A sociedade o julga até que ele pare de crescer.
Agradeço a Deus todos os dias por minha família ter me dado bases concretas para escrever o que você lê aqui, agora; seja por meio de vivências, bases teóricas, ou quaisquer tipos de entendimentos desde que sejam aceitos pela comunidade científica. Também rogo àqueles que não tiveram ou têm a mesma oportunidade que eu, pois uma coisa é certa: não, nenhum de nós tem as mesmas 24 horas, e esse papo de “meritocracia” não passa de uma falácia que desqualifica diária e metodologicamente a vivência de pessoas historicamente marginalizadas.
O que aqui descrevo é não mais que uma experiência real. Relacionando essas oportunidades de ter uma boa base teórica para se discutir soluções que incluam a pessoa autista nos mais diversos locais da sociedade, faz-se essencial refletir sobre uma questão que assola, principalmente, a população de baixa renda reponsável por pessoas dentro do espectro. A frase “quem cuida de quem cuida?” também se adequa ao cuidado com informações que são divulgadas na internet e nas mídias sociais.
Em constante alta e buscando cada vez mais nichos específicos por meio de perfis de organizações, instituições ou mesmo movimentos sociais, as redes digitais têm sido uma das maiores fontes para o compartilhamento de informações sobre determinados assuntos. Em se pensando no nicho “autismo”, consideramos páginas de apoio (ou que supostamente apoiam) à causa e que lutam por um mundo mais justo. Entretanto, a forma como estas páginas vêm tratando da ciência sobre terapias e, principalmente, publicações anticiência é aterrorizante.
É possível notar páginas que divulgam e apoiam até mesmo a “cura” do autismo, mesmo sabendo que ela não é nem mesmo argumentável para a comunidade científica. Para descontrair, uso uma frase da Vanessa Ziotti, chefe do departamento jurídico da deputada estadual Andréa Werner (PSB-SP), em um vídeo nas redes sociais: “autistas tr4ns4m e fazem autistinhas”. Ou seja, autistas crescem, se tornam adultos e têm uma vida que pode e DEVE ser considerada digna, autônoma e independente.
Não se pode esquecer também da última falácia que ouvimos do governo dos Estados Unidos, tradicionalmente referência em pesquisas sobre autismo. Agora, para o governo Trump e seu departamento de Saúde, a causa do autismo está relacionada ao uso de Paracetamol. Infelizmente, tanto o contexto de onde esta informação foi retirada, como o rápido compartilhamento por grupos que supostamente apoiam a causa fazem da vida informacional das pessoas que possuem um baixo nível de conhecimento um inferno. Como pudemos observar, essas páginas têm o objetivo de alcançar cada vez mais pessoas no mundo digital, mas o que realmente acontece é a deterioração de conteúdos que poderiam ser desmistificados e tornados públicos, contribuindo para uma progressiva melhora no quadro informativo das mídias digitais.
O que aconteceu com o caso do departamento norte-americano reafirma que estamos indo por água abaixo. Ao invés de discutirmos a melhoria dos serviços públicos (lembrando que os EUA não possuem sistema gratuito e universal de saúde) para a inclusão de crianças autistas, pensam em como deixar de formar autistas futuramente. Uma notável prática anticiência e que não reconhece, até o momento, qualquer comprovação científica. O laranjão decepciona mais uma vez na laranjolândia.
Meu conselho, para finalizar, é que você, leitor ou leitora, busque em sites jornalísticos e de checagem confiáveis, como G1, O Globo, Folha de S. Paulo, Nexo, dentre tantos outros jornais que contribuem com a democracia e o compromisso ético de informar. Se possível, acesse também revistas científicas que falem sobre o assunto de forma leve e descontraída, sem prender a atenção em adversidades. Pesquise antes de compartilhar uma informação falsa.
Por último, agradeço imensamente ao grupo Família TEA Bauru e ao Portal GPN pela oportunidade de escrever sobre um tema tão atual e que, até hoje, se vende por algo efêmero às pessoas. Falar sobre meus hiperfocos me possibilita compartilhar com quem quiser ler aquilo que é, para além da verdade, uma chance de se refletir sobre o que não é plenamente exposto.
Sobre o autor:
Olá, sou Bruno Lorenzetti Gil! Sou autista nível 1 de suporte, com altas habilidades/superdotação do tipo criativo-produtivo. Amante de todas as formas de cultura, arte e livre expressão do ser humano, sou bailarino, ator e escritor por pura paixão. Entrei para a Comissão de Marketing do Família TEA Bauru em junho deste ano, onde atuo na edição de vídeos e gerenciamento da página pelo Instagram. Sou estudante do 2º semestre do curso de Jornalismo do Centro Universitário do Sagrado Coração de Bauru (UNISAGRADO) com muito orgulho. Além disso, sou atleta líder das Olimpíadas Especiais Brasil, organização que me convidou para escrever um capítulo do livro “A Voz do Atleta Líder”, lançado em São Paulo, em agosto de 2025.
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